domingo, 30 de agosto de 2015

A EDUCAÇÃO NO NÍVEL SUPERIOR


A DOCÊNCIA E A IDENTIDADE DO PROFESSOR NO CENÁRIO ATUAL DA DOCÊNCIA NO ENSINO SUPERIOR


Tiago Barros de Almeida
proftiagoalmeida@gmail.com


INTRODUÇÃO
O Sistema de Ensino Superior no Brasil vem sofrendo uma verdadeira revolução desde que se estabeleceu como política pública nos primórdios da Sociedade Brasileira.
A partir da década de 80, os professores por toda a América Latina encontravam-se abatidos com salários minguados, massacrados pela inflação galopante, foram praticamente despejados no universo do multiemprego como alternativa de sobrevivência no meio da docência.
No caso dos professores da educação de nível superior, as oportunidades de emprego assumiram um movimento crescente, tornando-se uma avalanche desenfreada a partir dos anos 2000, turbinadas por políticas públicas, as quais estabeleceram medidas compensatórias à pretexto de democratizar o sistema de ensino, injetaram capital subsidiando total e parcialmente os custos com mensalidades em Instituições de Ensino Superior –IES do segmento privado, para os alunos inscritos em programas específicos para esse fim – a exemplo citamos o PROUNI e o FIES.
Em meio à toda turbulência gerada pelas forças dominantes cuja interação delineia os rumos da educação no Brasil, trazemos à baila duas questões em especial:
- Como está configurada a Docência no Ensino Superior no cenário atual da educação no País?
- Qual a influência deste cenário da educação sobre a Identidade do Professor que atua no nível superior?

O desenrolar das influencias do capital na educação em nosso país apresenta sua força ainda nos dias de hoje, influenciando as movimentações mercadológicas que vem abocanhando este novo e gigantesco segmento de mercado – o Sistema Privado de Educação Superior.
Gigantes no mundo dos negócios, e preocupados exclusivamente com a saúde financeira de seus empreendimentos, os grandes conglomerados financeiros internacionais vêm se movimentando e ganhando território, adquirindo ou construindo Instituições de Ensino Superior – IES por todo o Brasil.
Inúmeras são as consequências, dentre as quais podemos observar um grave distanciamento entre os elementos da tríade - Ensino, Pesquisa e Extensão. O Ensino adquiriu seu destaque em consequência da desequilibrada oferta de novos cursos pelas IES que descobriram neste novo filão uma excelente fonte de recursos.
Outra consequência desta mercantilização da educação superior é a brusca queda de qualidade na oferta de tais novos cursos, levando à formação deficiente de toda uma gama de profissionais que vem desaguando no mercado de trabalho a cada ano, inflando cada vez mais diversos setores da sociedade.
Todo este cenário vem se desenvolvendo não por acaso. Personagens de nível transnacional do quilate do FMI e do Banco Mundial, que apesar de se acortinarem em plano de fundo, regendo tudo sob seu controle, sempre se manifestando discretamente, mas em última instância, lutam para mascarar suas reais intenções políticas e sociais de manutenção e perpetuação do modelo econômico neoliberal, congelando nações inteiras, a pretexto de um pseudo-desenvolvimento.
Neste contexto, conforme nos ensina Lima (2012) todo investimento realizado exige como contrapartida medidas que devem ser tomadas como condição de concessão dos investimentos. Algumas exigências postas pelo Banco Mundial posicionam-se no campo da educação básica, focando no objetivo específico de preparar mão de obra para atender setores industriais e tecnológicos da sociedade. No tocante ao ensino superior, ficam evidentes as políticas de alargamento dos investimentos no setor privado, em total detrimento de ofertas por parte dos serviços públicos que atendam às necessidades da sociedade.
Receber propostas de medidas para a educação brasileira por parte do Banco Mundial, para Haddad (2008) não significa que tais mudanças sejam de qualidade, e ocorram efetivamente para benefício e desenvolvimento da sociedade, posto que para os investidores, na realidade tal educação reformulada apenas configura um instrumento facilitador para gerar mão de obra capaz de gerar um mercado competitivo.
Através dos estudos de Soares (2003), investimentos na educação ocorrem dentro de um rigoroso limiar que possibilita a formação de mão de obra qualificada para o alcance de metas industriais em determinados postos de trabalho, sem que seja, entretanto, dispendioso para as organizações. Para a autora uma nova fase está se desenrolando – o “pós-Fordismo”. Confrontado com o movimento outrora desenvolvido por Henri Ford no princípio do século passado, verifica-se uma nova busca pela produção em larga escala, tendo trabalhadores em cargos e funções específicas para tão somente agigantar a produção e sua consequente lucratividade.
No que tange aos vários fatores que compõem e influenciam a Identidade do Professor verificamos com as autoras Pimenta e Anastasiou (2008) uma observação muito peculiar a respeito do tema: pesquisadores e profissionais de áreas diversas ingressam na docência tão somente em razão da bagagem que trazem consigo pelo desempenho profissional realizado até então, isto é, pelo domínio de um conteúdo específico. Contudo, apesar de toda a sua experiência esses profissionais nunca foram levados a refletir sobre o real significado de “ser professor”.
Em uma perspectiva oposta, observamos as instituições que os recebem já pelo que “são”, e se isentam da responsabilidade inerente de contribuir para o que eles se “tornarão”, tendo em vista que a formação de professor é um processo contínuo, onde suas experiências e vivências práticas nas escolas e universidades são determinantes e parte integrante deste processo.
A partir do confronto entre a Identidade do profissional e as experiências de sala de aula, fica evidente a percepção sobre a influência da formação do profissional no processo de construção de sua Identidade Profissional.
Os profissionais oriundos da área da educação ou da licenciatura, de uma forma ou de outra tiveram oportunidade de transitar pelos elementos teóricos e práticos relativos à questão dicotômica associada ao processo de ensino e da aprendizagem, que por si só já movimenta o pêndulo da Identidade em direção à atividade docente, enquanto que para os outros profissionais oriundos das demais áreas do conhecimento, a construção da Identidade já fora iniciada desde as bases da sua formação profissional, fortalecendo-se ao longo de toda a sua trajetória acadêmica, a exemplo de médicos, advogados, juízes, sendo estes impelidos por motivos diversos a ingressar no mundo da docência como atividade secundária, identificando-se como um profissional que ministra aulas.
Um outro viés determinante no desenvolvimento e essencial na formação do professor é a pesquisa. Quando relacionada à Identidade, a vemos como fator direcionador no processo de reconhecimento do indivíduo na ilustre figura do professor.
Segundo André (2001), o movimento que valoriza o pesquisar na formação do docente é bastante recente, além de se encontrar muito limitado, pois as reais condições de atuação constante e diuturna do professor não contempla em carga horária nem em remuneração destinadas à pesquisa.
Encontramos farta manifestação no sentido de valorizar a articulação constante entre teoria e prática na formação docente, tanto na literatura Nacional quanto na literatura Internacional, reconhecendo a importância dos saberes da experiência e da reflexão crítica na melhoria da prática, o que acaba por atribuir ao professor as responsabilidades sobre o processo de desenvolvimento profissional.
Para a Autora, esperar que os professores se tornem pesquisadores, sem oferecer as necessárias condições ambientais, materiais e institucionais implica subestimar, tanto o peso das demandas do trabalho docente cotidiano, quanto os requisitos para um trabalho científico de qualidade, o que refletirá diretamente na afirmação de sua identidade.
Ressaltamos, por fim, que, segundo André (2001) a Proposta de Diretrizes para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica em Curso de Nível Superior (2001), elaborada pelo Conselho Nacional de Educação, inclui a pesquisa como elemento essencial na formação profissional do professor, fator este determinante no processo de construção de sua identidade como docente, quando este passa a assumir para si as responsabilidades de transmissão dos diversos saberes relacionados às vivências no mundo da Educação.


CONCLUSÃO
            Diante de um cenário completamente influenciado pelos ditames de elites dominantes, até mesmo em contexto transnacional, fica evidente o ciclo de consequências no qual o Sistema Educacional como um todo se encontra inserido.
            Em especial a Docência no Ensino Superior sofre influências diretas por meio de setores diversos, tanto da esfera privada com interesse em lucrar com a crescente demanda por profissionalização, quanto da esfera pública, que se esquiva covardemente de suas responsabilidades diretas e constitucionais de prover a sociedade em seus direitos básicos de receber a oferta de serviços públicos essenciais de qualidade, e tenta em vão tapar o sol com a peneira dos programas sociais populistas.
            No quesito Identidade, percebemos que a histórica desvalorização da classe docente, aliada às influências das forças financeiras que passaram a reger o sistema educacional, resultaram em uma diluição da essência da figura do Professor, enquadrando a classe dentre os seres em extinção.
             


REFERÊNCIAS

- ANDRÉ, Marli. PESQUISA, FORMAÇÃO E PRÁTICA DOCENTE. In: ANDRÉ, Marli (Org.), O PAPEL DA PESQUISA NA FORMAÇÃO E NA PRÁTICA DOS PROFESSORES, Campinas: Papirus, 2001

- LIMA, Marcelo Augusto Vilaça De. SOCIEDADE PÓS MODERNA E EDUCAÇÃO: As influencias do Banco Mundial no processo de reordenamento do ensino superior brasileiro. In: LIMA, Marcelo Augusto Vilaça De (Org.), EDUCAÇÃO SUPERIOR: Olhares contemporâneos, Belém: Cromos, 2012

- PIMENTA, Selma Garrido; ANASTASIOU, Léa Das Graças Camargos. DOCÊNCIA NO ENSINO SUPERIOR, São Paulo: Cortez, 2008


5 comentários:

  1. Este texto explica com clareza o confronto de forças antagônicas na questão da educação superior no país. Chamou-me a atenção a inserção no texto do FMI e instituições similares que exigem esse crescimento no ensino superior para concessões de empréstimos.
    Enfim, tais credores, acabam por contribuir para o cenário atual em que o ensino acadêmico se hipertrofia, especialmente com perda de qualidade.
    Tiago, também, cita a desvalorização do magistério especificando que é pensada; não é algo sem propósito, tal atitude visa, dentre outros objetivos, desmotivar os profissionais da educação prejudicando ainda mais o ensino a pesquisa e a extensão no Brasil.
    Ressalto, ainda, seu lançamento em tela das aquisições e incorporações que vem ocorrendo entre as empresas do ramo da educação, o que poderia trazer e, em muitas situações trazem, diminuição da já combalida qualidade de ensino.
    Parabéns Tiago por seu texto esclarecedor. Excelente!
    Cristóvão Andrade Filho

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  2. Elda Carla Barata Natividade
    A reflexão apresentada no texto a respeito da configuração da docência no Ensino Superior no cenário atual da educação no país, bem como a influência deste cenário educacional sobre a identidade do professor que atua no nível superior foi pertinente, rica e esclarecedora, tendo em vista as contribuições respaldadas em um sólido embasamento teórico que só acrescenta novas informações.
    Um ponto a destacar, em minha opinião, diz respeito à formação deste professor, que a meu ver, se torna insuficiente apenas um processo contínuo, mas este deve ser dinâmico e altamente fomentador de reflexões, pois o profissional da educação de base superior está formando seres pensantes, preparando cidadãos para a vida além de conduzir estes alunos a um mercado de trabalho extremamente seletivo. Então, um processo contínuo seria de pouca abrangência.
    Uma observação no que concerne a identidade do professor de ensino superior muito bem constituída foi a diferenciação que este professor detém ao vivenciar sua formação com bases teóricas e práticas na licenciatura, pois há outros professores que em virtude de uma condição mercadológica comprovadamente não desenvolvem tão bem sua identidade enquanto o professor que se desvirtuou de sua missão. A identidade do professor que adquiriu este conhecimento na academia constrói com melhor qualidade o perfil do profissional da educação superior.

    Um abraço Thiago!

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  3. ESte cenário da educação da identidade do professor,em meio a crise de desvalorização educacional é realmente preocupante,visto que as politicas publicas,criadas e inseridas que deveriam ser implantadas para uma melhor qualidade na educação e com maiores oportunidades para acesso a uma educação ,tem sido uma politca de acesso quantitativo,com desvalorização na qualidade ,em um cenário,que exige uma identidade profissional a cada dia mais quantitativo,mercadológico causando uma desvalorização profissional do professor.
    Parabéns pelo trabalho Thiago.
    Abraços Nayza Oliveira

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  4. Elenilce Viana Oliveira Brandão
    Acredito eu que trabalhar a identidade do profissional da educação atualmente é uma questão meio critica e precária, pois sabemos que seja qual for o nível que esse profissional trabalhe, somente pelo fato de ser da educação.
    Penso que por estarmos, vivermos em um mundo capitalista, conta mais a quantidade , desvalorizando assim a formação qualitativa do professor, prejudicando assim a sua identidade acadêmica, automaticamente essa questão pode ou não influenciar nos resultados, na desenvolvimento da aprendizagem.
    Parabéns Thiago!!!

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